Bertrand Russel, "Por que os homens vão à guerra", Capítulo 3: "A guerra como instituição". Editora UNESP, 1ª edição (2014), São Paulo.
O conflito, desde que não seja destrutivo nem brutal, é necessário para estimular as atividades dos homens e para assegurar a vitória do que está vivo sobre aquilo que é morto ou simplesmente tradicional. O desejo de triunfo de uma causa, o sentimento de solidariedade a grandes associações de homens, não são coisas que um sábio vá querer destruir. O mal é apenas o que resulta em morte, destruição e ódio. O problema é conservar esses impulsos sem fazer da guerra seu canal de manifestação.
Todas as utopias construídas até hoje são intoleravelmente enfadonhas. Qualquer homem que tenha alguma força dentro de si preferirá viver neste mundo, com todos os seus horrores pavorosos, a viver na República de Platão ou entre os Houyhnhnms de Swift. Os homens que criam utopias partem de uma premissa radicalmente falsa sobre o que constitui uma vida boa. Concebem que é possível imaginar certo estado de sociedade e certo modo de vida que seriam, de uma vez por todas, reconhecidos como bons e, portanto, continuados para todo o sempre. Eles não percebem que grande parte da felicidade de um homem depende da atividade e só uma pequena parte remanescente consiste no contentamento passivo. E mesmo os prazeres que consistem em contentamento só são satisfatórios, pelo menos à maioria dos homens, quando vêm em intervalos de atividade. Os reformadores sociais, tais como os inventores de utopias, costumam esquecer esse fato bastante óbvio da natureza humana. [...]
[...]
[...] uma grande proporção da humanidade tem um impulso ao conflito, e não à harmonia, e só pode ser levada a cooperar com os outros quando resiste ou ataca um inimigo comum. [...] Quando se sentem fortes o bastante, muitos homens se esforçam para serem temidos ao invés de amados; o desejo de obter opiniões positivas dos outros se restringe, por via de regra, àqueles que ainda não adquiriram poder efetivo. O impulso à contenda e à autoafirmação, o prazer de impor sua vontade a despeito das oposições, é inato na maioria dos homens. Mais do que qualquer outro motivo de interesse pessoal calculado, é esse impulso que produz a guerra [...].
[...]
Até onde se puder prevenir, algo precisa ser feito para fornecer uma saída pacífica a alguns dos impulsos que levam à guerra. [...] Claro que seria fácil produzir a paz se no mundo não existisse vigor. [...] Mas está claro que exatamente a mesma energia vital que produz tudo o que há de melhor também produz a guerra e o amor à guerra. [...] Para ser, a um só tempo, vitorioso e benevolente, o pacifismo precisa encontrar um canal de manifestação, compatível com o sentimento humano, para o vigor que hoje leva as nações à guerra e à destruição.